A percentagem de empresas nacionais que pagam dentro dos prazos acordados tem um dos piores registos do mundo, muito aquém da média das europeias. E as grandes são a piores, com apenas 4,4%.

A Informa D&B divulgou no início do ano o “Retrato da Gestão e dos Gestores em Portugal”, um estudo que aborda as mudanças estruturais no tecido empresarial português entre 2008 e 2016.

A percentagem de empresas nacionais que pagam dentro dos prazos acordados tem um dos piores registos do mundo (19,5%), muito aquém da média das europeias (39,1%). E as grandes são a piores, com apenas 4,4%.

O que leva as empresas a atrasar os pagamentos a fornecedores?

Existem vários motivos para uma empresa não respeitar os prazos definidos para o pagamento a fornecedores. Há casos em que a empresa não tem liquidez, devido à dificuldade em efectuar as cobranças junto dos seus clientes, motivando o seu próprio incumprimento com os fornecedores, outras não têm acesso ao crédito bancário e resolvem financiar-se nos fornecedores. Surgem também aqueles clientes que não têm dinheiro mas compram na mesma. Há ainda a cereja no topo do bolo, isto é, as empresas que vivem no limite. São entidades com liquidez, mas a administração só dá seguimento ao pagamento depois da suspensão do serviço ou da recepção da carta do advogado.

Os pagamentos em atraso, sejam eles voluntários ou involuntários, acabam por criar uma bola de neve em que ninguém paga a ninguém, levando ao encerramento de empresas que trabalham para um reduzido número de clientes e as que não têm capitais próprios suficientes para sobrevirem durante vários meses sem receitas.

Se formos ao encontro da origem do problema, ou seja, ao ponto em que a bola de neve começa a ser formada, percebemos que o principal responsável é o próprio sector público. Sim, o Estado que é tantas vezes identificado como ‘pessoa de bem’, o mesmo que é implacável na cobrança de impostos.

Segundo o Expresso de 03-02-2018, o Estado Português arrisca-se a enfrentar uma queixa da Comissão Europeia junto do Tribunal de Justiça da União Europeia e a sofrer uma sanção pecuniária por não pagar a tempo e horas aos seus fornecedores.

Em causa está o incumprimento da directiva comunitária que visa combater atrasos de pagamento nas transacções comerciais. A legislação europeia estabelece que as entidades públicas devem pagar os bens e serviços adquiridos aos seus fornecedores a 30 dias ou, em circunstâncias muito excepcionais, a 60 dias, prazo esse que Portugal não respeita.

A Intrum Justitia, a maior consultora europeia de serviços de gestão de crédito e cobranças, confirmou ao Expresso que o prazo médio de pagamento do Estado português aos seus fornecedores é superior ao da generalidade dos países europeus. A situação melhorou comparativamente com o que acontecia no passado, nomeadamente nas autarquias e institutos públicos, com excepção do sector farmacêutico, onde piorou.

A consultora alerta que o impacto nos fornecedores é bastante grande e faz-se sentir na tesouraria das empresas e, consequentemente, no investimento e no emprego. Contribui também para que o prazo médio de pagamentos dessas empresas aumente. Devido ao peso do Estado, toda a economia indirectamente é afectada.

Tal como um devedor pode ser responsável por originar dez novos devedores, talvez esteja na hora dos fornecedores do Estado unirem-se com o objectivo de colocar um ponto final nesta prática que nenhum Governo parece estar interessado em resolver e que tem lesado empresas e, consequentemente, famílias em todo o país.

No dia em que o Estado apenas tiver acesso aos serviços e produtos de que necessita, se efectuar o pagamento a pronto, terá então todo o direito em exigir dos contribuintes e empresas o pagamento atempado de impostos.

A questão é que muitos empresários temem a perda de clientes que não concordem em pagar a pronto ou a 30 dias. Preferem continuar a tolerar prazos superiores aos concedidos pelos seus próprios fornecedores, colocando em causa a saúde da empresa e o futuro dos seus trabalhadores.

O sucesso de uma empresa só está garantido com uma boa base de clientes, apenas possível através de uma gestão exigente com a qualidade do seu trabalho e que não se coíbe de recusar a relação com entidades problemáticas.

O meu percurso como empresário ensinou-me a ter tolerância zero com pessoas e empresas que fazem do atraso nos pagamentos um estilo de vida. Já recusei a prestação de serviços a muitas entidades e indiquei a porta de saída a muitas outras.

Para quê investir tempo, conhecimento e dinheiro em clientes que no final não pagam?