A situação da economia em Portugal tem vindo a dar sinais de melhoria, o que se reflecte no consumo e no nível de cumprimento relativamente ao crédito.

O Banco de Portugal revelou esta semana que o número de famílias em falta com as prestações dos seus empréstimos caiu abaixo dos 500 mil no final de Junho, uma fasquia nunca antes quebrada no histórico do regulador. Só no primeiro semestre de 2018, mais de 40 mil agregados familiares deixaram de estar em incumprimento com os seus empréstimos.

No final de Junho, a Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal contabilizava 484.047 consumidores em incumprimento com os seus créditos. Este número é o mais baixo desde o início do histórico do Banco de Portugal, que remonta ao primeiro trimestre de 2009.

São dados positivos no sentido da redução substancial do incumprimento, mas seria essencial que os bancos e os consumidores estivessem empenhados em manter esta tendência, o que não está a acontecer e não será de estranhar uma inversão a curto prazo.

Antes de pedir um crédito, o consumidor deve ter a noção se vai conseguir cumprir as prestações. Para isso é preciso fazer contas aos rendimentos, às despesas correntes e à necessidade de colocar algum dinheiro de parte para fazer face a imprevistos. Se existir uma folga no orçamento, então há condições para avançar. Pena que este procedimento simples é ignorado por muitos consumidores que só fazem contas quando as prestações começam a ficar por pagar. Aí sim, chegam à conclusão que o rendimento não é suficiente para fazer face às despesas ou, se quiserem continuar com a casa e com o carro, é necessário fazer cortes.

Se um consumidor não fez a contas em casa, então cabe ao banco analisar a situação financeira do cliente para sua protecção e para protecção da instituição financeira. O problema é que o grau de exigência da banca só atingiu níveis elevados no período alto da crise. Logo que a economia começou a dar sinais de recuperação, os bancos voltaram a facilitar o acesso ao crédito

Todos os dias são pedidos 20 milhões de euros de crédito ao consumo

Só nos primeiros seis meses de 2018, os bancos e as financeiras disponibilizaram perto de 3.700 milhões de euros em crédito ao consumo, um novo máximo histórico do Banco de Portugal. Em média, os portugueses pediram 20 milhões de euros por dia em crédito deste tipo.

O aumento da concessão de crédito foi transversal a todas as categorias do consumo, com destaque para o financiamento para a compra de automóvel. No primeiro semestre, os bancos e as financeiras emprestaram 1.541 milhões de euros para a compra de carro.

A concessão de crédito à habitação também continua a crescer. No primeiro semestre, a banca concedeu 4.500 milhões de euros para a compra de casa.

Estão os consumidores a fazer contas e os bancos a ser rigorosos? Lamentavelmente, não! Nada está a ser feito para que se evite uma nova crise.

Os consumidores voltaram a pedir créditos para passarem férias de fazer inveja às famílias, para terem o melhor automóvel do bairro e o melhor smartphone do grupo de amigos e uma casa de sonho. O passado ficou lá atrás e quem avisa é apelidado de pessimista.

Apesar dos alertas do Banco de Portugal, a banca vai ignorando porque não aprendeu nada no passado. Os senhores das comissões que se queixam da pouca rentabilidade dos seus bancos vão continuar a libertar dinheiro com facilidade, até que as recomendações do regulador passem a obrigações ou quando os números do incumprimento voltarem a tocar no vermelho.

Nenhum contribuinte quer voltar a pagar os actos pouco ou nada reflectidos da banca e de alguns consumidores. A verdade é que avançamos a grande velocidade nesse sentido.