Há seis anos que o Dia Mundial da Rádio é comemorado oficialmente a 13 de Fevereiro. A data foi escolhida pela UNESCO porque foi neste dia, em 1946, que a Radio ONU começou a transmitir desde a sede na Nações Unidas, em Nova Iorque, em onda curta para o resto do mundo, em cinco línguas oficiais da ONU, nomeadamente o Chinês, Inglês, Francês, Russo e Espanhol.

A rádio é o meio de comunicação que melhor tem conseguido adaptar-se ao aparecimento de novas plataformas de comunicação, primeiro com o aparecimento da televisão e depois com o início da expansão da internet. Esta última não foi vista como ameaça à rádio, mas como oportunidade para oferecer mais aos ouvintes. A internet passou a levar as emissões a todo o mundo, a complementar a informação com texto e imagem, a mostrar as estações por dentro e a disponibilizar conteúdos para ouvir a qualquer hora e em qualquer local.

O avanço da tecnologia tem permitido, em poucos anos, a disponibilização de velocidades de acesso à internet cada vez maiores, em ligações fixas e móveis, o que abre portas ao aparecimento de novas plataformas de distribuição de conteúdos. É aqui que a rádio encontra o maior desafio da sua história. Uma realidade para a qual nem todos estão preparados e outros insistem em subestimar. Mas já lá vamos.

Portugueses ouvem Rádio cerca de três horas por dia

Segundo os dados divulgados pela Marktest no início desde mês de Fevereiro, foram quase 4,7 milhões os portugueses que ouviram rádio durante o ano passado, com uma média diária de três horas. Comparando com 2014, nota-se uma quebra de 200 mil ouvintes no universo total.

A maioria dos ouvintes, mais de 2 milhões, concentra-se na faixa etária dos 24 aos 44 anos, seguindo-se cerca de 1 milhão na faixa dos 45 aos 64 anos. Os ouvintes com mais de 64 anos representam pouco mais de 600 mil e, a maior quebra, regista-se nos jovens até aos 24 anos que representam cerca de 700 mil ouvintes, número que tem vindo a cair a cada estudo.

Os jovens até aos 24 anos, em particular, mas também a faixa etária dos 24 aos 44 anos, começam a optar por outras plataformas para aceder a conteúdos, em detrimento das emissões em FM ou da simples emissão online.

É comum ouvir os mais jovens a comentar as rubricas que passam na Rádio, não porque as ouviram durante a emissão, mas porque acederam às mesmas quando foram disponibilizadas no site, nas redes sociais ou nas plataformas de podcast.

Há rádios que confundem o número de ‘Gostos’ no Facebook com o número de pessoas que ouvem as suas emissões.

Alguns responsáveis pelas estações de Rádio podem ficar bastante satisfeitos com o universo total de ouvintes, com as três horas de consumo diário das suas emissões e até com o número de seguidores nas redes sociais, havendo quem confunda o número de ‘Gostos’ no Facebook com o número de pessoas que ouvem as suas emissões. Contudo, haverá mesmo motivo para se achar que o rumo que está a ser seguido é o correcto e que é possível manter a rota, tendo por base estes indicadores? A resposta é não.

A partir da década de 90, com a informatização dos estúdios, surgiu a playlist, os programas de autor foram desaparecendo e o papel do animador passou para a quase irrelevância.

Antes, era despertada a curiosidade do ouvinte em cada emissão porque não havia dois programas iguais. Depois o animador ficou limitado a falar nos momentos assinalados na playlist e a dizer apenas o nome das músicas, o resumo do tempo e a anunciar que estão a chegar mais dez músicas seguidas ou quarenta minutos de música seguida. Todos os dias, a todas as horas, o animador utiliza os mesmos chavões, entre as mesmas músicas, que passam repetidamente.

Também o espaço reservado à informação foi emagrecendo. Hoje, uma síntese informativa com mais de um minuto de duração, é considerada uma eternidade para muitas direcções. Tudo porque deve prevalecer a música em detrimento da palavra.

Este tipo de emissão passou a ser uma autêntica pastilha elástica. O ouvinte já sabe qual é o sabor que vai encontrar, mastiga para passar o tempo, mas não alimenta.

Algumas rádios têm vingado com a fórmula ‘mais música e menos palavra’. É a mais barata, porque exige poucos meios humanos e dá pouco trabalho. Por outro lado, este facilitismo será o responsável pelo desaparecimento de muitas estações que não estão preparadas para as mudanças que estão a chegar.

Destaco o Spotify que está a preparar o lançamento de uma nova plataforma de informação áudio que promete entrar em concorrência directa com a rádio e com os podcasts. Numa primeira fase estará disponível nos EUA, mas existem planos para a expansão para novos mercados a curto prazo.

A nova plataforma vai chamar-se Spotlight e a programação incluirá conteúdos de informação produzidos pelos publishers parceiros, que vão abordar temáticas como política, sociedade, economia, cultura e desporto. Tudo o que um noticiário deve conter.

Com esta nova aposta, o Spotify, que é actualmente líder entre os serviços de streaming de música, pretende entrar na corrida aos 18.000 milhões de dólares de investimento publicitário captado pela rádio no mercado norte-americano, além de entrar em concorrência directa não só com as estações de rádio mas também com podcasts de gigantes digitais como a Apple e o YouTube, disponibilizando mais conteúdos aos cerca de 70 milhões de utilizadores que já subscrevem a plataforma.

O que estão a fazer as rádios para ultrapassar mais este desafio? Umas subestimam as novas formas de distribuição de conteúdos e outras ainda consideram que a chegada destes serviços está a uma grande distância.

A verdade é que há nomes bastante conhecidos da rádio em Portugal que estão a criar os seus próprios projectos. São pequenas rubricas e mesmo programas de autor sobre várias temáticas e estilos musicais. As rádios não estão interessadas, mas estes conteúdos, que podem ser ouvidos a qualquer hora, começam a criar um público fiel e os anunciantes sabem disso.

Quando os serviços como o Spotlight chegarem a Portugal, os produtores de conteúdo passam a poder estar todos concentrados numa plataforma com mais público e maior retorno publicitário. O ouvinte terá o poder de criar a sua playlist, seleccionar as rubricas e os programas de autor que preferir, esteja em casa ao computador, na rua com o smartphone ou no carro.

A curto prazo, as rádios que continuarem a apostar em ‘mais música e menos palavra’ vão ser superadas pelas concorrentes que apostarem na informação, no directo e na interactividade com o ouvinte.

O futuro da Rádio será tudo menos os que as ‘líderes’ fazem actualmente

A curto prazo, as rádios que continuarem a apostar em ‘mais música e menos palavra’ vão ser superadas pelas concorrentes que apostarem na informação, no directo e na interactividade com o ouvinte, porque são estas estações que vão continuar a captar a audiência.

Quando alguém ligar o rádio e ouvir um animador a anunciar que estão a começar 40 minutos de música seguida, vai desligar e optar por seleccionar os seus conteúdos preferidos e a sua própria playlist.

Esta não é uma antevisão do ano 2050. O futuro é agora, é algo que já existe e que está a crescer através dos sites e blogs dos produtores, plataformas como o TuneIn, Spotify e Apple Music. Já é possível aceder a estes serviços em todo o lado, até onde mais se ouve rádio, no automóvel, do maior topo de gama ao mais pequeno utilitário.

Os produtores de conteúdos, dispensados pelas rádios, já estão no futuro a trabalhar para os seus ouvintes. E as rádios, vão continuar a ser as caixinhas de música do FM?